Japão começa a discutir regras para mercado de cartas colecionáveis
O mercado de cartas colecionáveis no Japão entrou no radar de parlamentares do Partido Liberal Democrático (PLD), principal partido da coalizão governista do país. O grupo pretende avaliar se o...

O mercado de cartas colecionáveis no Japão entrou no radar de parlamentares do Partido Liberal Democrático (PLD), principal partido da coalizão governista do país. O grupo pretende avaliar se o setor precisa de novas regras diante da forte valorização de exemplares raros e do aumento de problemas relacionados a falsificações, especulação e possíveis operações financeiras ilícitas.
A discussão não envolve apenas as cartas de Pokémon. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg News, os parlamentares também analisam produtos ligados a outras franquias japonesas de grande popularidade, entre elas Yu-Gi-Oh!.
Para os integrantes do grupo, as cartas deixaram de ser apenas itens destinados ao entretenimento e à coleção. Com exemplares raros alcançando valores extremamente elevados, o segmento passou a apresentar características semelhantes às de um mercado de ativos, aumentando a necessidade de mecanismos de fiscalização.
Por enquanto, nenhuma nova lei ou regulamentação foi apresentada oficialmente. A intenção é ouvir fabricantes, lojas, colecionadores e outros representantes do setor antes de elaborar eventuais propostas.
Mercado japonês movimenta bilhões
O crescimento do segmento ajuda a explicar a preocupação dos parlamentares. O mercado japonês de cartas colecionáveis avançou cerca de 90% nos quatro anos encerrados no ano fiscal de 2025. Ao final desse período, a indústria movimentava aproximadamente ¥ 338 bilhões, valor equivalente a cerca de US$ 2,1 bilhões ou R$ 10,5 bilhões na conversão mencionada pela reportagem.
O que durante muito tempo foi visto principalmente como um passatempo para crianças e fãs passou a atrair também investidores e compradores interessados na possibilidade de valorização futura.
Cartas extremamente raras, caixas ainda lacradas e exemplares submetidos a empresas especializadas em autenticação e classificação passaram a ser negociados por valores elevados. A conservação, a autenticidade e a raridade podem fazer uma diferença enorme no preço final.
No cenário internacional, o mercado de cartas colecionáveis é estimado entre US$ 13 bilhões e US$ 15,8 bilhões. Pokémon ocupa uma das posições de maior destaque, com mais de 75 bilhões de cartas impressas em diferentes mercados, segundo estimativas citadas pelo International Business Times UK.
Carta de Pikachu bate recorde milionário
Um dos casos que melhor demonstra a dimensão alcançada pelo setor é o da Pikachu Illustrator, considerada uma das cartas mais raras da história de Pokémon.
O exemplar, que pertenceu ao influenciador e lutador norte-americano Logan Paul, foi vendido pela Goldin Auctions em fevereiro de 2026 por US$ 16,492 milhões, aproximadamente R$ 84,6 milhões na cotação mencionada.
O negócio estabeleceu o recorde de carta de Pokémon mais cara já comercializada em um leilão. O valor também colocou o item no topo entre as cartas colecionáveis de todas as categorias vendidas em leilões, considerando os registros disponíveis naquele momento.
A carta recebeu a classificação PSA Gem Mint 10, a nota máxima atribuída pela PSA para itens em condições excepcionais. Trata-se, segundo os registros citados, da única cópia conhecida com essa classificação.
Logan Paul havia adquirido o exemplar em 2021 por US$ 5,275 milhões, cerca de R$ 27 milhões na cotação utilizada. Na ocasião, a negociação havia estabelecido um recorde para uma venda privada de uma carta de Pokémon.
Item nasceu de concurso no Japão
A história da Pikachu Illustrator também ajuda a explicar sua enorme valorização. A carta foi criada pela artista japonesa Atsuko Nishida, reconhecida por participar do desenvolvimento do design original de Pikachu.
Diferentemente de cartas produzidas para venda em lojas, esse exemplar não chegou ao mercado comercial tradicional. Ele foi distribuído como prêmio de um concurso de ilustração realizado no Japão em 1998.
A combinação entre quantidade extremamente limitada, importância histórica e estado de conservação transformou a carta em um dos itens mais cobiçados pelos colecionadores.
Falsificações e roubos preocupam setor
O crescimento dos preços, entretanto, também trouxe novos riscos. Além da circulação de falsificações, autoridades e comerciantes passaram a enfrentar problemas relacionados a roubos e ao possível uso de cartas de alto valor em operações de lavagem de dinheiro.
Um dos fatores que tornam esses produtos atrativos para criminosos é justamente seu tamanho. Cartas podem ser transportadas com facilidade, armazenadas discretamente e revendidas em diferentes mercados. Alguns exemplares chegam a custar o equivalente ao preço de imóveis de luxo.
Nos Estados Unidos, lojas especializadas já foram alvo de invasões. Em Colton, na Califórnia, criminosos encapuzados entraram na loja Into the Retroverse e levaram mais de US$ 16 mil em cartas e outros produtos.
Em Corona, também na Califórnia, outro estabelecimento sofreu uma perda estimada em até US$ 20 mil em itens colecionáveis.
Ataques semelhantes também foram registrados fora dos Estados Unidos. Uma loja de jogos localizada em Moonee Ponds, na Austrália, foi assaltada duas vezes. No episódio mais recente, os criminosos levaram cartas de Pokémon e One Piece.
Japão quer maior controle sem sufocar o setor
Outro aspecto que chamou a atenção dos parlamentares é o papel de empresas norte-americanas na avaliação e formação dos preços internacionais das cartas. O questionamento ocorre porque franquias como Pokémon e Yu-Gi-Oh! nasceram no Japão, embora parte importante do mercado global de avaliação e revenda esteja concentrada fora do país.
Empresas especializadas são responsáveis por analisar aspectos como autenticidade, conservação e eventuais danos. Depois dessa avaliação, o item recebe uma classificação que pode provocar uma grande diferença em seu valor de mercado.
Seiji Kihara, parlamentar do PLD que lidera o grupo, afirmou que o debate também pode contribuir para fortalecer as propriedades intelectuais japonesas. Ao mesmo tempo, a intenção é evitar medidas que afastem empresas ou dificultem a expansão do segmento.
A proposta, portanto, é encontrar um meio-termo. De um lado, regras mais rígidas poderiam proteger consumidores e colecionadores contra fraudes, falsificações e manipulação de preços. De outro, uma regulamentação excessiva poderia prejudicar uma indústria impulsionada pela cultura dos fãs, pela escassez dos produtos e pelo mercado de revenda.
Antes de apresentar qualquer recomendação, os parlamentares ainda devem consultar fabricantes, comerciantes e outros representantes da indústria.
Até o momento, o Japão não aprovou nenhuma nova regulamentação específica para cartas de Pokémon. O assunto continua em discussão dentro do partido governista e ainda poderá resultar — ou não — em novas medidas para o setor.
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